Última etapa da série documental percorre a trajetória do Restaurante Girassol, o Pão no Bafo e a relação entre gastronomia, produtores locais e memória cultural nos Campos Gerais

A gastronomia paranaense ganha um novo capítulo audiovisual com a chegada da série documental Sabores do Paraná a Palmeira, nos Campos Gerais. Nesta sexta-feira (10), a produção inicia as gravações da última etapa de uma expedição que percorreu diferentes regiões do estado para investigar como receitas, ingredientes, técnicas culinárias e memórias familiares ajudam a construir a identidade de um território.
Depois de passar por Foz do Iguaçu, Antonina e Curitiba, a série encontra em Palmeira uma história marcada pela continuidade entre gerações. O personagem central do episódio é o Restaurante Girassol e a trajetória de Rosane Radecki de Oliveira, que transformou a herança gastronômica recebida da família em um trabalho permanente de pesquisa, preservação e valorização da cultura alimentar local.
A produção foi aprovada pelo Edital de Audiovisual I da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC), com recursos da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, Governo Federal.
Gastronomia paranaense como patrimônio e memória
Com quatro episódios, Sabores do Paraná percorre diferentes paisagens e comunidades para mostrar que a cozinha pode ser também uma forma de preservar histórias. A série acompanha personagens reais e investiga as relações entre alimentação, território, imigração, agricultura, tradição e pertencimento.
Para a diretora Ana Azevedo, o projeto nasceu justamente da curiosidade sobre aquilo que existe por trás de pratos que se tornaram referências culturais.
Ao longo da expedição, a equipe encontra pessoas que utilizam a cozinha como instrumento de expressão e memória. São histórias em que cozinhar ultrapassa a preparação de uma receita e se transforma em uma maneira de transmitir conhecimentos, manter tradições e aproximar novas gerações de suas origens.
Essa perspectiva revela um Paraná gastronômico diverso, formado pelo encontro de diferentes povos, paisagens, modos de produção e costumes. Em cada destino, a comida funciona como uma espécie de fio condutor para compreender as transformações de uma comunidade.
Restaurante Girassol: uma história construída entre gerações
Em Palmeira, a câmera acompanha uma trajetória que começou dentro da própria família de Rosane. O Restaurante Girassol foi fundado no início dos anos 1980 por seu pai e seu avô e passou a integrar a memória gastronômica da cidade, além de fazer parte da experiência de quem circula pela BR-277.
A relação de Rosane com o restaurante começou ainda na infância. Depois da escola, ela ajudava o avô na chapa, acompanhava o pai no salão e aprendia com a mãe, Gabriela, os conhecimentos da cozinha.
Anos mais tarde, ao assumir o negócio familiar, Rosane passou a conciliar a preservação dessa memória com a necessidade de atualizar o restaurante. O resultado é uma trajetória em que tradição e contemporaneidade convivem no mesmo espaço.
Entre as receitas recuperadas pela família estão preparos que atravessaram décadas e continuam presentes no cotidiano do Girassol. O pierogi preparado por Rosane e Gabriela, seguindo a receita da avó, ocupa lugar especial nessa narrativa, ao lado do pão, do chucrute e das carnes feitas na chapa.
São preparações que carregam uma dimensão afetiva e histórica. Mesmo depois da partida de pessoas importantes para a família, seus conhecimentos continuam sendo reproduzidos por meio dos sabores.
Pão no Bafo coloca Palmeira no mapa gastronômico
Um dos principais capítulos do episódio é dedicado ao Pão no Bafo, preparação que se tornou um símbolo do trabalho de Rosane em torno da gastronomia de Palmeira.
O contato com a receita começou a partir de uma lembrança de infância. Ao ser desafiada a apresentar um prato que representasse a cidade, Rosane recuperou da memória o preparo e iniciou uma pesquisa sobre suas origens e sobre as famílias responsáveis por sua chegada à região.
A investigação levou o Pão no Bafo para além das cozinhas familiares. A receita passou a circular em eventos dentro e fora do Paraná, contribuindo para ampliar o reconhecimento de uma tradição gastronômica associada à história local.
O trabalho também colaborou para o reconhecimento do Pão no Bafo como patrimônio imaterial de Palmeira. Para o Restaurante Girassol, essa trajetória abriu novas possibilidades de conexão com a gastronomia paranaense e levou a casa a integrar a Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança.
Nesse contexto, os pratos deixam de ser apenas itens de um cardápio. Tornam-se ferramentas para contar a história de uma cidade, de suas famílias e dos diferentes grupos que participaram da formação cultural do território.
Do restaurante à produção local
A pesquisa de Rosane também se estende para fora da cozinha. A série acompanha sua aproximação com agricultores e criadores da região, revelando uma cadeia gastronômica na qual o restaurante está diretamente conectado ao campo.
As gravações percorrem propriedades dos Campos Gerais e apresentam ingredientes, variedades cultivadas localmente e práticas de produção que buscam aproveitar melhor os recursos disponíveis e reduzir o desperdício.
Essa relação evidencia uma característica cada vez mais importante da gastronomia contemporânea: compreender a origem dos ingredientes e reconhecer as pessoas responsáveis por produzi-los.
No caso do Girassol, essa aproximação também fortalece uma visão de gastronomia regional na qual o território não aparece apenas como cenário. Ele participa efetivamente da construção dos pratos, das escolhas dos ingredientes e das histórias contadas pelo restaurante.
Tropeiros, imigrantes e porcadeiros ajudam a contar o Paraná
A investigação conduzida por Rosane mergulha ainda em diferentes momentos da formação regional. Tropeiros, imigrantes, a Colônia Cecília e os antigos porcadeiros aparecem como referências para compreender a relação entre deslocamentos, trabalho, agricultura e alimentação nos Campos Gerais.
Essas pesquisas também influenciam a criação de pratos e ajudam a transformar acontecimentos históricos em experiências gastronômicas.
O percurso culmina no Porcadeiros, encontro que reúne cozinheiros, agricultores, criadores e produtores ao redor do fogo. A iniciativa recupera a memória dos homens que conduziam tropas de suínos pelo Paraná e estabelece uma ponte entre essa história e a produção contemporânea da região.
A cena sintetiza a proposta de Sabores do Paraná: olhar para o passado sem deixar de observar a cozinha que continua sendo construída no presente.
Uma viagem pela diversidade da cozinha paranaense
A chegada a Palmeira encerra uma jornada que atravessou diferentes territórios e interpretações sobre a gastronomia do Paraná.
Em Foz do Iguaçu, a série acompanhou Sr. Ali e Hussein em uma narrativa sobre imigração libanesa, memória e identidade. A comida apareceu como elo entre a vida construída no Brasil e as raízes do país de origem.
Em Antonina, Lindamar conduziu a equipe por lembranças familiares relacionadas ao barreado, revelando como uma preparação tradicional pode permanecer viva quando é transmitida entre gerações e incorporada ao cotidiano.
Já em Curitiba, a trajetória de Manu Buffara aproximou gastronomia, natureza, território, produtores e sustentabilidade, mostrando outra perspectiva sobre a construção de uma cozinha autoral paranaense.
Palmeira completa esse mosaico ao apresentar uma gastronomia diretamente relacionada à memória familiar, à produção regional e à pesquisa histórica.
Quatro episódios, quatro formas de contar o Paraná
A estrutura da série organiza essas diferentes experiências em quatro episódios.
Raízes | Curitiba
A trajetória de Manu Buffara conduz uma reflexão sobre família, natureza e território e sobre como esses elementos participam da construção de uma cozinha autoral conectada à sustentabilidade e ao pertencimento.
Travessia | Foz do Iguaçu
Sr. Ali e Hussein apresentam a memória da imigração libanesa e a reconstrução de suas vidas em Foz do Iguaçu. A culinária aparece como instrumento de preservação cultural e como elo permanente com as origens familiares.
Memória | Antonina
Em Antonina, Lindamar revisita histórias da infância e da família para preservar a tradição do barreado. Seu restaurante se transforma em espaço de continuidade cultural, no qual cozinhar significa também manter viva uma memória coletiva.
Legado | Palmeira
O episódio final acompanha Rosane e o Restaurante Girassol em uma jornada que conecta receitas familiares, Pão no Bafo, produtores locais e pesquisa histórica. A narrativa mostra como uma herança gastronômica pode ultrapassar os limites de uma família e se transformar em patrimônio de uma comunidade.
Quando a comida conta uma história
Ao finalizar sua expedição em Palmeira, Sabores do Paraná reforça uma ideia central: conhecer uma gastronomia regional também significa conhecer as pessoas, os lugares e os acontecimentos que deram origem a ela.
Nas receitas transmitidas por avós, nos ingredientes cultivados por agricultores, nas histórias de imigração e nas tradições preservadas por restaurantes, existe um patrimônio que nem sempre está registrado em livros, mas permanece vivo à mesa.
Os quatro episódios da série documental Sabores do Paraná têm lançamento previsto ainda para 2026.
Serviço
Série documental Sabores do Paraná
Instagram: @docsabores
Direção: Ana Azevedo
Produção Executiva: Edward Fabris
Direção de Fotografia: Bic Rafagnin (Rafael Damen Rafagnin)
Direção de Arte: Gui Almeida (Guilherme Henrique de Almeida)
Projeto aprovado pelo Edital de Audiovisual I da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC), com recursos da Lei Paulo Gustavo do Ministério da Cultura, Governo Federal.
Saiba tudo que acontece aqui na Revista Empório

